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ARTIGOS
Santo Pecado
NELSON VALENTE*
Noite fria e chuvosa. O vento é suave como a brisa a entoar nas ramagens e nas
frinchas das venezianas, a canção da tristeza e da saudade.É a mística sinfonia
da natureza.
A igreja imponente no alto da colina, iluminada pelos relâmpagos, proporcionando
lascas e aços espelhados no horizonte sem fim. Dentro da igreja, a amargura: um
estupro.
Alguns anos depois...
Amanhece...aí pelas onze, bateu à porta do seminário um rapaz que há tempos
andava à cata de emprego. Como não era hábito abrir-se a porta a qualquer, Frei
Bonifácio olhou pelo buraquinho.
Disse que queria falar ao Diretor ( sabia lá o nome do cargo ?) e foi levado à
presença do dito cujo, com visível satisfação. Aquele, de comovida aparência,
deixou-se beijar os cordões e declarou que realmente lá precisavam de alguém. Na
cozinha pelo menos Napoleão, o cozinheiro chefe, queixava-se há bocado do
excesso de trabalho.
Indagado, como era praxe, sobre a sua origem, etc...e tal, soube-se que era de
parcos recursos, filho mãe solteira, que embora com ela não vivesse, andava
saudoso e muito. Como soubera do emprego questionaram, mas a inocência das
respostas nada tirou nem acrescentou.
Dia seguinte lá estavam de emprego novo. Feliz, Evandro, nome sonoro, a cara não
era de todo má. E Ademias os ares santos do lugar poderiam toma-lo melhor.
Tiritando de frio (era inverno grosso), espaventou-se seminário adentro,
deixando a vida a correr atrás de si, lá fora, assim que o frade o mandara
entrar.
Freqüentemente dado a introspecções, não sabia bem porque sua alma, sentia-a
dilacerada de uns tempos para cá. Trocava-se as bolas, mal silabava o Pai-Nosso
à noitinha arrumava pretextos, dissimulava (será isso ódio? Amor?). Não sabe nem
quer saber. Quase nem percebe o blém-blém do sino que o desperta.Ouve uma voz
suave tem ciúmes da paz. Era tudo o que esperava. Podia ter ido para outro
lugar, mas aquele, não se sabe bem porque, fora o mais indicado.
Uma voz chama-o com êxtase sobe ao patamar, confiando o frade um sorriso
empalidecido e ensaia algumas palavras. O que consegue é um bom dia sufocado.
Atravessam os claustros, o céu baixo e cinzento, procura abrigar-se na blusa
desgastada que a mãe lhe tecera. Torce-se dentro dela, como os caracóis quando
amolados. Alguém desce as escadas do primeiro andar. Sente um frio no cangote,
mas o clima cheira a santidade e isto o fortifica. Ademais, a limpeza, o rafiné,o
todo no lugar, a resina dos pinheiros excitam-no mais e mais. Tenta outras
excitações, mas não resiste à curiosidade de, por instantes, esticar as pestanas
até uma janelinha indiscreta que rasga seu esperar uma parede amarelecida.
Mexe com botões e os enche de perguntas, tirando-os e recolocando-os nas casas,
e continua a seguir o Frei Bonifácio, que bochechudo mais parece uma moranga
madura. Bate uma saudade da horta da mãe!
Na sua dispersão, perdera até o frio, aquecera-se mais, com satisfação observa
que chegaram. Entram na cozinha e então, rompendo-lhes as inibições e numa
simplicidade familiar, sorri ao cozinheiro chefe.
Ele, os olhos estatelados, corresponde – “Anda, ajudar! A gente precisa se
entender. Tem muita coisa pra você já ir fazendo”, disse-lhe Napoleão.
Há qualquer coisa nele de forte que satisfaz Evandro. Fica ali como se
protegido, de repente, e cinco minutos depois já descasca os inhames para a
sopa.
-Que é que trouxe aqui?
A vontade de trabalhar. Talvez o fascínio de um lugar como este. Não sei porque,
mas conventos e padres sempre me atraíram. Invejo os frades, sua cara de
alienados, sempre de bem com a vida, podem exigir se quiserem o que quiseram, em
nome de uma absolvição. Podem ‘beber e comer como abades’(rindo-se), e não
precisam invejar nada o que está lá fora, não acha?
Não é bem assim, creio eu, às vezes, levantam com cabelo repartido do lado
errado e de ovo virado. Riram-se os dois e continuaram os afazeres.
Lavada a louça, Evandro perguntou a que horas costumavam jantar os frades. Que
às seis, e que hoje, além da sopa, comeriam filé de pescada e medalhão. O rapaz
franziu o nariz.
O certo é que a fradaria, aos poucos, já exauria as potencialidades do novo
habitante, que afinal tinha vinte e um anos e já trouxera um pouco mais de
agitação para o lugar. Ele, por sua vez, não ousava ser
inconveniente.Introduzia-se na intimidade do seminário, ora a ensaiar alguma
observação mais ousada, ora a arriscar uma gargalhada.
Logo de manhã levava um cafezinho com licor ao Frei Bernardo, o manda chuva,
como o chamava; afinal não se trata de convento mendicante! Sobrava lá o que
faltava cá fora!
Percebia que ra bem recebido, mas importante não deixar a prudência. Afinal
certos atrevimentos se expressos de forma correta, pensava ele, passam a ser
lisonja. Por isso, sempre que possível engolia a língua para não vomitar mais
asneiras. Talvez o excesso de zelo o reprimisse um pouco, mas antes assim.
Já há vinte dias que lá se encontrava e pela primeira vez fora advertido pelo
Frei Teodósio, por ter deixado cair o galheteiro. Como às vezes é necessário que
se retraiam emoções faciais, contraiu-se também por dentro e calou-se. Calou-se
com cara apoplética, o que provocou risos de outros padres. Percebeu que estava
perdoado. Não resistiu também e viu que já se contaminava com aquela frase que
diz “padre ri a toa”.
Não que o galheteiro engrossasse as dificuldades do seminário, mas assim que
pudesse compraria um outro para substituir o quebrado. Além do mais, pensava
Evandro, talvez há muito tempo os habitantes da santidade não tiveram sentido
alguma diferença entre o quebrar ou não o galheteiros, uma vez que isso não
implicasse ter a barriga agarrada às costas por pança vazia!
Levantaram-se após as orações e, breve aviso de procissão da penitência. Foi
nessa procissão que Evandro teve, que indesejavelmente, castigar-se com um jejum
obrigatório. O que até agora era cor-de-rosa passou a ser bege. “-Afinal, nem
sempre o semáfaro tem a cor que a gente quer!”, pensou.
Achava demais ter de beber óleo de rícino. De madrugada aproveitou-se do
trabalho que seus intestinos lhe deram para arriscar uma visita até a adega –
“Imunda! Não via limpeza, sabe-se lá desde quando”.Entrou ingênuo e saiu
aguçado. O vinho fazia um efeito celestial! Dormiu como um anjo e sonhou com
prazeres da carne. – “Aí que saudade da Ditinha”.Mas seus humores faziam cócegas
na hora da procissão. Não entendia nada daquele aparato todo, o que lhe
provocava pensamentos estupidamente hereges. Não que fosse rebelde.Mas se dessem
por isso, seria certamente castigado por Deus e pelos homens. Deduzia que fosse
um dos grandes penitentes, pois fora colocado na cabeça da procissão; mas
sentiu-se importante, porque ali ia o regimento principal e todos almejavam a
mesma coisa: a salvação das almas. Ele, mais que ninguém! -“Que fedor! É mal
daqueles que têm a alma perfumada demais”.
Viu-se interrompido nas conjeturas, quando uma voz apocalíptica mandou que
rezasse o “mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa”. Todos se ajoelharam. Evandro
abalou-se. A mãe ensinara-lhe a rezar a tal oração quando ia pra cama. Dizia que
se a gente morresse dormindo, já morria perdoado. Achou que tinha chegado a sua
hora. Quase chorou de susto. Não compreendia bem a liturgia, lembrava-se pouco.
Só percebeu que luzia na mão de um dos frades algo redondo e lindo. Era a
custódia. Olhou para aquilo e sentiu-se levitar. Quase entrou em alfa como um
bocó e quase delirou. Acordou com uma mão cabeluda sacudindo-lhe a cabeça - o
“show” terminara, finalmente. Pediu rápido licença para se retirar. A fraqueza
atravessava-lhe os ossos, pelo jejum, e tinha vontade de dormir. O corpo exangue
e flácido escorregava das bases. Sombras e manchas azuis, verdes, amarelas,
quase extintas. Amava aquele lugar. As pálpebras pesadas imploravam por descanso
e o céu de chumbo lá fora apagava-se mais uma vez. Olhou para o Cristo na parede
e só viu a metade.
Acordou com um torpor inexplicável. Um latinório ouviu-se ao longe. Ruído de
paramentos, pigarros do frade mais velho -Esse já está com um pé na cova e outro
na casca de banana”.Uma lufada de vento o entristeceu voluptuosamente. A própria
carne estaca e friorenta. Lembrou-se do pacto. Não podia esquecer-se da mãe.
Veio-lhe o impulso de fugir. –Ah! Bons dias de sol, em que jogava bola no adro
da igreja. Armar redes, sentar-se à sombra dos arvoredos!”.
Estremeceu. Levantou-se. O ar estagnado cheirava-lhe mal. Tudo caía em cima
dele. A voz da mãe desabava. E nem as genuflexões, nem os sinais-da-cruz, as
atitudes compenetradas dos padres na capela, o impediram de dirigir-se àquele
quarto, onde alguém quase jazia.
-Mea culpa, mea máxima culpa...”.Tinha medo, mas não podia fugir. Chegou, parou
, entrou.
-Frei Apolinário!”. (o coração fechara-lhe a razão. Descompreendeu a bondade e a
generosidade ).
O Frei curvara-se e parecia murmurar algo.
Num gesto desmedido falou: -“Quem é você e o que quer? Como entrou aqui?”.
-“A farsa acabou. Se Deus pra você sempre significou luz, pra mim a pra minha
mãe sempre significou treva. Sou filho de seu estupro e sangue de sua
indiferença.”
O sol irrompeu pela porta afora, uma melodia suave no ar. O nevoeiro
dissipara-se e Evandro, o pequeno vingador, desapareceu na escola da vida,
deixando para trás o rastro da morte.
Adeus, professora.
NELSON VALENTE*
O sol caía a pino sobre a cidade de Novo-Horizonte/SP.
O ano vinha-se caracterizando por tremenda estiagem que assolava a cidade e, em
conseqüência das grandes queimadas que calcinavam vastas áreas de matas
derrubadas para o plantio do café, espessos rolos de fumaça elevavam-se para o
céu, como enormes colunas movediças erguidas para o infinito.
O crepitar das labaredas destruidoras fazia-se ouvir ao longe como o gargalhar
do ígneo elemento em sua faina irresistível e devastadora.
O sol, impotente para atravessar com seus raios a espessa onda de fumaça que se
estendia pela vastidão do espaço, desenhava no céu cinzento e opaco o seu disco
rubro, porém, sem o brilho característico.
Durante o dia, sob a profunda camada de névoa seca que a recobria por toda a
parte, Novo-Horizonte parecia dormitar, imersa na sonolência das coisas
esquecidas.
O suor deslizava pela face, gotejando pelo rosto sombrio, pálido e envelhecido,
um pouco rubro. As rugas acentuadas demarcavam o sofrido rosto do velho
visitante em meus pensamentos.
O estranho visitante acomodou-se como quis na ampla e confortável poltrona.
Esticou as longas e magras pernas sobre a cadeira que lhe estava em frente, num
autêntico espreguiçamento que lhe fez estalar as juntas entorpecidas pela
postura anterior.
Em seguida tornou a fitar-me atentamente, com aqueles olhos profundos e
perscrutadores, esvurmando os pensamentos mais ocultos e secretos.
Sua voz, grave e soturna, fez-se ouvir:
- Veja, meu amigo, o homem vive matando! – franziu a testa,ficou olhando para
mim um tempo,depois sorriu e disse com a voz rouca:
- O homem é dotado de uma inteligência diabólica, domina a superfície da Terra e
as entranhas do espaço, assassinando impiedosamente tanto os outros animais como
os seus semelhantes.
Calou-se o estranho visitante.
O som cavo de suas palavras, como que se distanciando no lento processo de
absorção pelo silêncio, extinguiu-se todo.
Com as mãos trêmulas, apalpei a poltrona vazia ainda há pouco ocupada pelo
sinistro mensageiro da descrença e do desespero.
Lentamente o sol descamba ao acaso.
Avermelha-se o ocidente aos últimos lampejos da grande lâmpada. Depois esmaecem
as tonalidades vivas. Nos campos solitários. O curiango rompe o hierático
silencia com seu canto nostálgico.
Anoitece...
Tudo é silêncio, e a natureza queda em profunda letargia.
Foi por acaso, por um desses acasos inexplicáveis o que, no conjunto de
acontecimentos que revestem a nossa vida sempre se apresentam com as
características singulares que lhes são próprias, que me chegou a triste notícia
da morte, ocorrida a muitos anos, de minha professora Ruth Motta Mello.
Quase quatro décadas haviam transcorrido desde a última vez que a vi numa
distante manhã em que, já de malas prontas, aparecera em casa para despedir-se
de mim. Durante todo esse longo tempo eu não tivera a mínima notícia de minha
professora não obstante ter sempre procurado localizá-la a fim de externar-lhe
todo o meu reconhecimento pela maneira atenciosa e gentil com que me distinguiu
durante os felizes quatro anos do curso primário que passei no Grupo Escolar de
Novo-Horizonte, da qual era digna educadora.
E agora, sob o rude impacto da notícia dolorosa, senti a pungente aguilhoada da
tristeza e da saudade. Um nó apertou-me a garganta, os olhos se me embaciaram,
soltaram-se as rédeas do meu pensamento e um mundo de recordações se me
apresentou. Vaguei, levado pela imaginação, para longe, para muito longe dos
tempos atuais, para os domínios esquecidos de um passado distante, para a seara
dulçorosa da minha infância despreocupada. Tudo revi, tudo se me apresentou como
se por um passe de mágica o passado feliz se unisse ao presente tristonho.
Que importa se as imagens, pela ação inexorável do tempo não mais se
apresentassem com o colorido encantador das antigas eras da minha vida?
A força da evocação compensa, em tais casos, o poder incoercível do tempo e eu
pude ver ante meus olhos uma ininterrupta seqüência de fatos, num desfile de
coisas mortas a ressuscitar, a viver novamente, a delinear no seu saudoso
conjunto, árvores frondosas, estradas solitárias, uma velha igreja, a modesta
casa em que nasci, o pequeno edifício do Grupo Escolar e, primeiro plano, a
figura simpática e querida de Dona Ruth!
Ouvi-lhe, outra vez, os ensinamentos, os conselhos; acompanhei-lhe a
característica contração que fazia para nos parecer severa ao repreender-nos por
alguma peraltice ou má ação que tivéssemos praticado; ocasiões essas em que ela
nem de leve poderia imaginar que nós, os seus alunos, vendo-a assim, mais e mais
a estimávamos porque compreendíamos que, sob aquela aparente severidade, o que
transparecia era o profundo sentimento de afeto por nós de seu boníssimo
coração.
Desenha-se assim, em minha memória a imagem de uma pequena e modesta escola
primária. Do fundo verde-escuro, representado pela fronde de velhas árvores,
emergem contornos brancos do singelo edifício escolar. Constitui ele uma mancha
clara pincelando com a diferença da cor o espesso colorido verde do estupendo e
agreste quadro natural. Cobre-o telhado enegrecido pela ação de tantas chuvas
que suportou e cujo tamborilar, naquelas remotas eras, soava sons aos meus
ouvidos com acordes sublimes de uma canção divina e misteriosa.
Foi ali, dentro de suas velhas paredes, ouvindo a sinfonia do vento nas ramagens
das árvores próximas, que eu tive a ventura de conhecer a única professora da
qual recebi, os únicos ensinamentos que pude adquirir num estabelecimento
educacional: o ensino primário.
Vejo-a ainda em sua mesa de trabalho com seus olhos negros a destacar-se do
moreno pálido do seu rosto emoldurado pela vasta cabeleira castanha.
Vejo-a afagando os meus cabelos revoltos de garoto livre e sonhador, criado na
vastidão sem limites da cidade de Novo-Horizonte. Recordo-me muito bem da última
vez que a vi quando nos deixou, partindo para a cidade de Campinas, enquanto eu
lhe depositava nas mãos o ósculo do meu respeito e da minha imorredoura
gratidão.
Esta é a modesta e sincera homenagem que posso agora prestar como tributo de
gratidão, a memória daquela que, sob moldes humaníssimos e quase maternos,
abriu-me a réstea de luz da alfabetização da cartilha “Caminho Suave” de nossa
educadora paulista, Branca Alves de Lima.
O estranho visitante nunca mais apareceu!
A curiosidade levou-me há dias...
NELSON VALENTE*
- Vi todas as minhas doenças reunidas, enquanto as olhava, não eram mais doenças
e sim rosas que seriam plantadas e cresceriam.
A curiosidade levou-me há dias, a rebuscar nuns velhos papéis que guardo no
fundo de uma gaveta esquecida, um pequeno caderno, no qual, à guisa de diário,
na minha já distante adolescência, eu já rabiscava fatos ou acontecimentos
passados em nossa cidade – Novo-Horizonte – São Paulo. São folhas esparsas de
uma era longínqua e saudosa, e nas páginas amarelecidas do modesto livreto pude
sentir todo um poema de ternura e saudade, toda a beleza das épocas remotas.
Traços de coisas que se passaram, ensaios de incipientes composições literárias,
inícios de contos brotados do fundo de nossa imaginação juvenil, fotografias de
amigos que desapareceram, lembranças de namoradas que se diluíram na voragem dos
anos que se sucederam...
E a velha e modesta que era Novo-Horizonte, com seus encantos de então, com suas
imagens características de pequenina e esquecida povoação do Interior, passou
pela minha memória, envoltas nas brumas da saudade. Com que emoção, pois,
curvado sobre o livrinho de anotações manuseando suas folhas desbotadas pelo
tempo, sentindo-lhe o cheiro característico dos anos acumulados, eu sentia
refluir os antigos sonhos cor-de-rosa, os mesmos laivos de grandeza instilados
pela fonte da inocência, nascidas da pureza dos nossos sentimentos juvenis,
quando aureolava à nossa vida s mística , a deliciosa ondas das esperanças mais
sublimes;quando acreditávamos que nas lindas noites de prenilúnio os fantasmas
se reuniam à sombra da alta e frondosa árvore próximo da casa de minha avó.
Quantas recordações:
O sol caía a pino sobre Novo-Horizonte.
O trecho da rua Trajano Machado, compreendido entre a rua São Sebastião e a
avenida Cel. Junqueira, onde terminava a cidade, encontrava-se absolutamente
deserto. Nem uma viva alma a se movimentar na via silenciosa, batida em cheio
pela soalheira implacável.
Súbito, um cavaleiro isolado aparece na esquina da Cel. Junqueira e, fincando a
esporas no animal, desce a rua Trajano, estreptosamente, provocando a
curiosidade dos sonolentos comerciantes que, apressados, acorriam às portas dos
seus estabelecimentos para ver o que estava acontecendo.
O arrojado cavaleiro, notando-se alvo da curiosidade geral, exibia-se em
arriscadas manobras eqüestres, lançando o animal sobre as calçadas e
proporcionando um inusitado espetáculo às pessoas que, pouco a pouco, foram se
aglomerando nos passeios de terra batida da mencionada rua.
O cavalo, colhido de surpresa pelo brusco movimento, relinchou ruidosamente,
escarvando com os cascos a superfície ressequida do solo.
Densa nuvem de poeira avermelhada elevou-se para o alto envolvendo em seu
torvelinho o cavaleiro e o animal.
Era evidente que o desconhecido cavaleiro tivera pouco antes um contato mais
prolongado com Baco, pois que, a certa altura, começou a dirigir pesados
insultos às pessoas próximas, ameaçando de fechar o comércio à bala da rua
Trajano.
E vai daí, num gesto digno dos mais famosos pistoleiros do velho oeste
americano, saca de um revólver de cano longo e dispara dois tiros para o ar,
gritando:
- Eu fecho este comércio!
Diante do irretorquível argumento do seu reluzente revólver, o comércio fechou
as portas, mesmo. Fechou com uma rapidez nunca vista, com as folhas das portas
de madeira a se entrechocarem ruidosamente, enquanto lá fora um verdadeiro
pandemônio se estabelecia, ouvindo-se imprecações, gritos, berros, tiros,
correrias e mais ruídos indispensáveis às cenas dessa natureza.
Esgotada a carga da arma perigosa, felizmente toda ela atirada para o ar, o
façanhudo cavaleiro, satisfeito por ter fechado o comércio da rua Trajano
Machado, retirou-se velozmente desaparecendo na esquina da avenida Cel.
Junqueira.
E a paz voltou a reinar nessa parte de minha cidade de Novo-Horizonte.
Tudo isso disse-me o caderno de anotações. Tudo isso e mais uma porção de
coisas. Falou-me longamente das coisas esquecidas de minha terra!...
A chegarem no alto da colina, os cavaleiros retesaram violentamente as rédeas
dos animais,suspendendo a marcha forçada de longas horas. Os cavalos, colhidos
pelo brusco movimento, relincharam ruidosamente, escarvando com os cascos a
superfície ressequida do solo.
Densa nuvem de poeira avermelhada elevou-se para o alto envolvendo em seu
torvelinho homens e animais.
O cavaleiro que parecia comandar o pequeno grupo ergue o corpo sobre o arção da
sela, espalma a mão diante dos olhos para protege-los dos raios solares. Em
seguida descreve com o braço largo gesto, indicando algo em direção ao poente.
Seus companheiros, imitando a atitude do chefe, fixam os olhos no rumo indicado,
vislumbrando ao longe, numa clareira aberta entre a densa e variada vegetação,
um grupo de modestas casas. Um sorriso de satisfação brota-lhes dos lábios
requeimados, enquanto as mãos, num gesto instintivamente executando muitas vezes
durante a rude jornada, procuram os grandes lenços para enxugar o suor que lhes
escorre abundantemente pelas faces cansadas.
O córrego do Vale das Sombras ficara para trás, serpenteando entre o cerrado
retorcido e os viajantes ansiavam por encontrar curso de água onde pudessem
novamente fruir o refrigério amigo das sombras marginais. O sol, que durante o
dia todo vertera sobre a terra os seus raios de fogo, descambava lentamente para
o acaso, franjando de tonalidades douradas as nuvens que se acastelavam a leste.
O calor, porém, ainda era intenso, queimando a epiderme do rosto e das mãos dos
exaustos cavaleiros obrigando-os a procurar refúgio sob a copa de altas árvores.
Mas, a marcha que iniciaram dois dias antes do longínquo Vale das Sombras,
encontrava-se agora em sua fase final.
Lá adiante, na clareira promissora, onde o aglomerado de toscas choupanas o
repouso necessário, a merecida recompensa pelo esforço despendido a áspera e
perigosa travessia do sertão.
Prelibavam a alegria da próxima chegada ao pequeno núcleo habitado, quando já se
delineava o curso sinuoso Rio da Fonte.
E foi então, em meio ao profundo silêncio da hora crepuscular e cercados pelo
hierático esplendor das virgens solidões, que puderam sentir a imensa satisfação
de autênticos pioneiros.
O Vale das Sombras, envolta pelos últimos lampejos do sol, lhes acenava ao
longe.
A Árvore das Assombrações
NELSON VALENTE*
Tarde fria e chuvosa. Densas nuvens cinzentas acumulam-se no horizonte do Vale
das Sombras, ameaçando pancadas de chuva. O vento suave como a brisa, entoando
nas ramagens das árvores e nas frinchas das venezianas a melancólica canção da
tristeza e da saudade.
Postado atrás da vidraça da casa tristonha e silenciosa, ouvia-se o tamborilar
da chuva nas calhas do telhado enegrecido pela espessa camada de musgo, e o
ribombar do trovão que se perde como mugido na vastidão ilimitada. É a mística
sinfonia da natureza a envolver a nossa infância feliz e despreocupada, quando
em tardes semelhantes, com as pernitas desnudas, brincava-se ruidosamente,
afundando os pés nas enxurradas tumultuosas.
Drauzio é levado pela música adormecedora, refluindo as imagens do passado que
não volta mais, e, como a gota que escorre pela vidraça que oculta, uma lágrima
que deslizava pela face.
Drauzio julga a violar um mundo de esquecimento e saudade, a ressuscitar
personagens que há muito completaram o ciclo de sua existência, a reviver fases
pela redoma sagrada dos anos acumulados.
Lá fora, a chuva continua a cair, cantando nos beirais do telhado e no silêncio
do Vale das Sombras...
Por longos instantes...Drauzio pensava consigo mesmo:
- De todas as árvores do Vale das Sombras, que tanto amei na minha infância, uma
se destaca pelo traço marcante da superstição e do receio que sempre me
infundiu.
Erguia-se ela em terreno inclinado cujo vértice terminava na tortuosa e
solitária estrada que demandava o cemitério do Vale das Sombras. O chão
avermelhado que a circundava encontrava-se sempre recoberto por espessa camada
de capim nativo que, com suas compridas folhas, atapetava de um imaculado
verde-escuro a gleba toda.
A esquerda, o monte que dominava com seus poderosos contornos e cenário rústico
daquela região, enquanto mais próximo, à direita, o campanário da velha igreja,
emergindo dentre os tufos da vegetação, estabelecia o flagrante contraste do
amarelo desbotado de sua antiga alvenaria com a intensa tonalidade verde das
árvores circundantes.
Ao sul, bem acima da igreja, a campina se alastrava, quebrando-lhe a monótona
uniformidade montículos de grama, criados ao longe pela mancha escura de um
cerrado que se estendia a perder de vista.
A árvore das assombrações – como a chamavam no Vale das Sombras – destacava-se
no conjunto agreste pela tortuosidade de seu tronco, pela forma bizarra de sua
copa cuja galhardia desordenada desbraçava-se em todas as direções e pelo
permanente revestimento de folhas onde os raios solares jamais penetraram.
O tronco enorme e retorcido, apresentava-se sempre envolvido por grossa casca
embolorada pela excessiva umidade e, em suas reentrâncias, insetos de toda a
espécie e negras lagartixas encontravam o seguro refúgio. De um lado do tronco,
na base de um galho que ali existira e que talvez fora, em épocas distantes,
decepado pela fúria dos vendavais, formara-se profunda cavidade onde se
represava a água das chuvas, permitindo proliferação de rãs.
Em dias escuros e chuvosos o trovão ribombava surdamente nos horizontes do Vale
das Sombras e a chuva coava-se pelos labirintos da densa camada de folhas,
escorrendo pela nodosidades da árvore, esses pequenos e feios animais iniciavam
sua tremenda sinfonia de berros que se ouvia à grande distância, ecoando pelo
Vale.
Corriam estranhas histórias a respeito dessa árvore.
Os campeiros, que tangiam o gado bravio desde as furnas inacessíveis daquela
desolada região, afirmavam que viram, muitas vezes, em lindas noites de lua
cheia, estranhos vultos se reunirem à sombra da árvore misteriosa. Diziam com
uma seriedade que impressionava, que se tratava de fantasmas vindos através dos
vestutos paredões do longíquo cemitério, atraídos pela alma de um viandante
desconhecido que falecera, há muitos anos, sobre as recurvas raízes do solitário
vegetal.
- Eu ouvia essas lendas, dando-lhe um cunho de absoluta autenticidade – pensava
Drauzio.
Acreditava plenamente nos horripilantes relatos e eles povoavam os pensamento de
Drauzio, em seus pensamento de um menino sonhador, fazendo com que seus receios
pela árvore aumentassem ainda mais.
- Não obstante, eu amava a velha árvore – pensava Drauzio.
Amava-a, vendo-a assim, de longe, porque ela proporcionava a fascínio
incoercível dos mistérios indevassáveis. Nas noites escuras, quando o vento
rugia varrendo a grimpa do monte e a vastidão das Campinas distantes, o
pensamento de Drauzio dirigia-se para a árvore amedrontadora, vendo-lhe, na
imaginação, a galhardia retorcida ao rude embate dos elementos em fúria. Temia
que, na manhã seguinte, ela se apresentasse destruída desde as raízes pela força
do vendaval impetuoso.
Mas, quando a rutilante manhã se apresentava, afugentadas que eram as nuvens da
tormenta noturna, Drauzio sorria, satisfeito ao ver que nada lhe acontecera.
Lá estava ela, como sempre, a ostentar na limpidez do amanhecer radioso a
imponência de seus contornos impressionantes.
- Lembro-me que, numa noite de lua cheia, organizamos um numeroso grupo de
garotos e nos dirigimos para a porteira, pouco além da casa em que nasci. Desse
lugar divisar o vasto prado onde se erguia a árvore assombrada – lembrou ele.
Instalaram no alto da porteira, olhando atentamente a extensa e silenciosa
região que se estendia pelo Vale das Sombras. Não foi difícil localizar ao longe
o vulto escuro da árvore, porém suas formas apresentavam imprecisas sob a pálida
claridade lunar. Por largo tempo quedaram imóveis, absortos em muda contemplação
do cenário fascinante. O canto nostálgico dos curiangos fazia-se ouvir ao longe
do Vale e era a única nota a romper o profundo silêncio que reinava.
De súbito, como que surgindo dos mais distantes recantos do Vale das Sombras,
vários vultos esbranquiçados e de formas não bem delineadas em virtude da
distância que os separava, começaram a atravessar as alfombras enluaradas
convergindo para o estranho vegetal.
Diante disso, só restava o recurso de uma desabalada fuga em direção de suas
casas.
Recordo-me bem daquela longínqua manhã de julho quando, em companhia de meus
pais e meus irmãos, parti, de mudança desta hospitaleira Novo-Horizonte para
capital de São Paulo.
Antes fui me despedir da velha árvore.
Sozinho, subi o alto do moirão da porteira e dessa posição olhei longamente o
enorme e solitário vegetal que tanto assustava os meninos de Novo-Horizonte.
Procurava com isso fixar mais e mais em minha memória a imagem da árvore cercada
de mistério, sentido, desde então, que ela constituiria, através dos anos, um
marco inolvidável da minha infância e da minha terra natal.
O tempo passou. Quase quarenta anos decorrem desde o dia em que fui me despedir
da velha árvore. Circunstâncias impediram-se de rever antes o meu torrão natal.
Mas, quando há poucos dias, premido pela saudade avassaladora, fui rever a terra
onde nasci, procurei ansiosamente a sinistra árvore dos fantasmas.
Mas não mais a encontrei. O tempo, o mesmo tempo que banira da minha mente o
encanto das superstições infantis, destruirá também o motivo das minhas
longínquas e saudosas preocupações.
A árvore já não existe!
E com ela desaparecem os seus fantasmas.
Lentamente o sol descamba ao acaso.
Avermelha-se o ocidente aos últimos lampejos da grande lâmpada. Depois esmaecem
as tonalidades vivas.
Anoitece...
Tudo é silêncio, e a natureza queda em profunda letargia.
Sob a fronde de vetusta árvore procuro abrigo, fugindo à inclemência da
soalheira terrível. Ergue-se o imponente vegetal no alto de uma colina da qual
descortino magnífico e vasto panorama. A transição entre a canícula desfibradora
e doce refrigério da sobra amiga, é rápida. Sinto o seu efeito e posso haurir, a
plenos pulmões, o ar fresco que me proporciona profundo bem estar.
Gosto de fugir, nos intervalos que roubo às minhas constantes atividades, ao
bulício da vida citadina, para encontrar no silêncio do campo e na vastidão do
cenário que a natureza nos proporciona, as condições de que necessito para um
pouco de descanso espiritual.
Da posição em que me encontro, espreito as dilatadas distâncias, mergulhadas nas
profundas ondas da ofuscante luz solar, e recolho do cenário imenso, múltiplas
imagens.
Tudo é silêncio, e a natureza queda em profunda letargia.
Um céu de bronze, onde o sol rutilante navega lentamente, atirando sobre a face
enrugada da terra calcinada os seus raios de fogo. Cobre a paisagem, envolvendo
tudo num quadro de lassidão e inércia acabrunhadoras. Até os pássaros, cantores
suaves dos campos ensolarados, desaparecem no recesso da mata escura, cuja oria
descortino ao longe, margeando o curso sinuoso do rio. A infinita sucessão de
colinas perde-se na distância, como réstea azulada na fímbria do horizonte
dilatado. Penso nas primitivas eras do nosso globo, quando a natureza, em
convulsões ciclópicas, enrugando a superfície da Terra e criando os seus
habitantes, procurava, através de milênios, estabelecer as condições
indispensáveis à sua própria existência. E, então, mais do que nunca, tenho a
sensação da pequenez do homem ante a incomensurável grandeza do Criador.
Lentamente o sol descamba para ao acaso.
Avermelha-se o ocidente aos últimos lampejos da grande lâmpada. Depois esmaecem
as tonalidades vivas. Nos campos solitários, o curiango rompe o hierático
silêncio com seu canto nostálgico.
Anoitece...
Sulcador majestoso dos espaços
azuis
NELSON VALENTE*
Conta-se uma história, que um certo dia, numa manhã ensolarada, que um pássaro
aparecera em uma fazenda na minha querida cidade natal – Novo-Horizonte/SP.
Era pequeno e, ao invés da característica plumagem negra de urubu,
apresentava-se com o corpo revestido por leve penugem branca, o que lhe dava um
aspecto feio e grotesco.
Seu aparecimento provocou intenso alvoroço, entre os moradores. Santiago
agarrou-o, acolheu-o carinhosamente, levou-o para casa, deu-lhe alimentos e, num
gesto que bem demonstra a sensibilidade de seu coração, trouxe para a cidade.
À medida que o tempo passava, crescia o pequeno pássaro transviado, aumentando
na mesma proporção o afeto recíproco entre Santiago e o sulcador majestoso dos
espaços azuis.
A primitiva penugem branca fora substituída pelo sombrio e imaculado colorido
negro; o bico de ave carnívora delineava pouco a pouco os seus poderosos
contornos a procura do alimento preferido.
Em estranha e singela cerimônia, Santiago deu-lhe o nome de Sombra, gravando-o
em pequena chapa de reluzente metal que lhe foi amarrado à perna direita.
E desde então, o negro pássaro constitui-se alvo de todas as atenções. Manso e
obediente às ordens de seu senhor, enchia a casa toda com o rufar de suas
enormes asas; quebrava o silêncio com o seu crocitar característico, afugentava
os gatos do telhado, investindo, de outro lado, contra os representantes da raça
canina que, furtivamente, procuravam virar as latas que encontravam no fundo do
quintal...
Sob o abrigo seguro de seu humano protetor, dormia encolhido no recanto isolado
de uma dependência existente numa extremidade da casa. Acordava aos primeiros
albores da manhã, estirava as asas num genuíno espreguiçamento matinal e, com
passos lentos e desengonçados, caminhava pela casa toda, a espera da primeira
refeição, que não faltaria.
Depois, talvez cedendo aos impulsos do instinto, erguia vôo, desaparecendo na
linha azul do horizonte.
Quiçá encontraria nessas viagens, lá ao longe, no recesso da mata silenciosa ou
no cume de uma rocha alcantilada, a doce companheira que, arisca e desconfiada,
recusava-se a segui-lo, não acreditando na bondade dos homens.
Horas depois regressava, anunciando ruidosamente sua chegada. Santiago
esperava-o sempre, oferecendo-lhe como de hábito, suculentos nacos de carne que
Sombra devorava em poucos instantes.
Mas, a maldade humana – certa feita, quando pousara em plena clareira no centro
da cidade, garotos travessos o agarraram brutalmente fraturando-lhe uma asa.
Santiago, prevendo o desastre, correu apressadamente, levando para a casa o
urubu ferido. Prodigalizou-lhe todos os cuidados, recorrendo mesmo à competência
de conhecido médico da cidade para salvar o pássaro que tanto estimava. Mas a
terrível fratura exposta não deixava dúvidas sobre o intenso sofrimento e
próximo fim da infeliz ave. Santiago não poderia suportar a lenta agonia do
pobre Sombra. Sem coragem para efetuar o golpe de misericórdia , encarregou seu
irmão Cândido para desfechar o tiro decisivo. Este, vacilante e comovido,
executou a ordem dolorosa.
O estampido da cápsula ao deflagrar-se ecoou tristemente pela casa repercutindo
em todas as dependências.
O negro pássaro agitou pela última vez suas imensas asas, como derradeiro
agradecimento ao seu benfeitor, quebrando-se depois na eterna imobilidade da
morte.
Santiago sentiu um nó na garganta e,no soluço que brotou do coração bem formado
consubstanciava-se toda a afeição que, de modo singular, dedicava ao pobre ser
alado que certa manhã aparecera na cidade de Novo-Horizonte/SP, provocando
intenso alvoroço!...
Ernesto “Che”Guevara e Jânio da Silva
Quadros
NELSON VALENTE*
Em agosto de 1961, os jornais e revistas de todo o mundo publicaram fotos
procedentes de Punta del Este, famosa cidade praiana do Uruguai. Mas não de
vedetes e estrelas de cinema, porém, de cavalheiros, profissionais da
diplomacia, da política, das finanças, da economia, da sociologia, os quais sob
aquele sol e aquelas águas acostumadas a banhar idéias mais curtas e cabelos
mais compridos, estarão concentrados no emaranhado jogo de proposta e
contrapropostas, de avanços e recuos de uma reunião internacional: a Reunião
Extraordinária do Conselho Interamericano Econômico e Social em Nível
Ministerial.
Essa reunião tem uma história bastante comprida, a precedê-la, a própria
história do pan-americanismo, com quase dois séculos de reuniões, tratados,
declarações e idéias. O capítulo que abrange os nossos dias começa com a carta
do ex-presidente Juscelino Kubitschek, ao seu colega dos Estados Unidos, Dwight
Eisenhower, datada de 28 de maio de 1958. Em essência a carta dizia: assim como
uma corrente não é mais forte do que seu elo mais fraco, o mundo livre liderado
pelos estados Unidos não poderia ser mais forte do que o mais fraco e o mais
pobre dos países que o integram. E partindo daí lançava a tese de que o
acelerado desenvolvimento econômico e social da América Latina deveria passar a
ser considerado pelos Estados Unidos como um problema político e estratégico da
mais alta importância, peça de seu próprio sistema de segurança.
A essa tese o Brasil dava o nome "logan" de Operação Pan-americana e ajuntava
que o desenvolvimento desta região ocidental não seria atingido, a menos que, a
exemplo do que fizeram em relação à Europa depauperada que emergiu da II Guerra
Mundial, os Estados Unidos, agora ajudados pelos próprios países europeus por
eles reerguidos, passassem a falar e agir em matéria de ajuda à América Latina,
em termos de bilhões e não mais de milhões. Antes de passar a palavra aos
Estados Unidos, o Brasil enviou-lhes técnicos para lembrar-lhes que, do jeito
que as coisas iam, a União Soviética sozinha, teria em 1980, renda per capita
superior à renda per capita de todo o bloco de países ocidentais.
A disparidade entre países ricos e países pobres, bem como as relações de
domínio e proteção, de exploração ou de solidariedade entre eles são coisas que
sempre existiram, desde que o mundo é mundo o que em nossos dias há de novo
nessas relações é, primeiro, que essa disparidade tende sempre a agravar-se,
isto é, os países ricos se vão tornando cada vez mais ricos, distanciando-se dos
que são pobres e, segundo, que graças à própria tecnologia que possibilitou esse
estado de coisas, os países pobres não mais se conformam com sua própria
pobreza. Daí resulta o dilema diante do qual se encontram os Estados Unidos; ou
eles ajudam os países pobres a desenvolver-se ou, estes, para desenvolver-se,
acabarão optando pela mudança das regras do jogo. Em outras palavras: eles se
desenvolverão dentro do regime de vida ocidental, de preferência, ou fora dele,
se necessário. Não faz chantagem quem diz aos Estados Unidos: "ajudem-nos ou não
poderemos resistir ao comunismo". Pode parecer frase de chantagista, mas
trata-se do desesperado apelo de um aliado, que é o que a América Latina nunca
deixou de ser em relação aos Estados Unidos. Na base da decisão americana de
tudo fazer por ver consolidar-se ao sul do Rio Grande uma civilização
democrática e progressista, terá de estar o propósito de responder a essa
ameaça.
Cada vez mais se generaliza a convicção de que o principal resultado da Operação
Pan-americana tenha sido encontrar para os Estados Unidos uma atitude em relação
à América Latina que, só mais tarde, eles adotariam. Pois, no plano das coisas
concretas, os dois únicos frutos que resultaram da frondosa, magnífica e
riquíssima árvore da Operação Pan-americana aí estão, não a afirmá-la, mas antes
a negá-la: o Banco Interamericano de Desenvolvimento, cujo capital se reduz à
soma de l bilhão de dólares, simplesmente ridícula diante da magnitude dos
problemas em que se debate a América Latina, e ainda assim, metade do mesmo
tendo sido realizado pelos próprios países latino-americanos, e a Ata de Bogotá,
endosso que, em setembro do ano passado, os latino-americanos deram ao plano de
500 milhões de dólares para a América Latina, preparado às pressas por
Eisenhower sob a ameaça de Kruchev de soltar foguetes contra Nova Iorque se os
Estados Unidos agredissem Cuba. O plano foi feito, o endosso latino-americano
foi obtido, mas o dinheiro ainda não veio para a América Latina. O capital de 1
bilhão de dólares para o banco Interamericano foi a negação mais categórica que
se poderia contrapor a tudo que havia de essencial e profundo na Operação
Pan-americana. Erraram os Estados Unidos ao propô-lo; erraram mais ainda os
latino-americanos, ao aceitá-lo. Isso é tudo que resultou das reuniões do Comitê
dos 21 criado pela Operação Pan-americana. É forçoso reconhecer que a dupla
Eisenhower-Dulles não era terreno em que medrassem frutos aproveitáveis.
Eisenhower recebeu de Truman uma América Latina débil e subdesenvolvida, mas
menos pressionada por problemas financeiros e mais esperançosa em relação à
ajuda que poderia vir a receber dos Estados Unidos, e legou-a a Kennedy à beira
da insolvência, ainda mais debilitada pelo pauperismo, hostil como nunca o fora
antes e atingida, em Cuba, do mal que sempre se procurara evitar, o comunismo.
Kennedy, liberal ele próprio e cercado, na maioria dos liberais tem outra visão
do problema latino-americano. A reunião de Punta del Este foi proposta por ele
como o segundo dos dez pontos contidos no discurso que em 13 de março,
pronunciou diante de todos os Embaixadores latino-americanos em Washington,
exceto os de Cuba e da República Dominicana (relações diplomáticas rompidas), e
no qual, após dizer que os povos deste Continente devem "proceder com ousadia,
consoante o conceito majestoso da Operação Pan-americana", lançou a nova cruzada
a que denominou "Aliança para o Progresso". São os seguintes, em resumo, os dez
pontos mencionados por Kennedy: 1° elaboração de um Plano de Dez Anos, para cuja
realização os Estados Unidos estarão prontos a prover recursos de alcance e
magnitude comparáveis aos que destinaram à reconstrução das economias da Europa
Ocidental (Plano Marshall); 2° convocação de uma reunião de nível ministerial do
Conselho Interamericano e Social, no qual se iniciaria a elaboração desse grande
plano, que constituirá a base da Aliança para o Progresso; 3° emprego de 500
milhões de dólares previstos na Ata de Bogotá; 4° apoio à integração econômica
latino-americana; 5° colaboração do exame sério e minucioso dos problemas
relacionados com o comércio exterior de produtos primários; 6° aceleração
imediata do programa de emergência intitulado Alimentos para a Paz; 7°
formulação de planos para o estabelecimento de laboratórios regionais na América
Latina destinados à pesquisa em medicina, agricultura, física, astronomia; 8°
aceleração dos programas de preparação pessoal especializado para dirigir as
economias ora em desenvolvimento da América Latina; 9° reiteração do compromisso
dos EEUU de defenderem qualquer nação americana cuja independência esteja
ameaçada e apoio à proposta chilena de procederem os latino-americanos a uma
"sensata limitação de armamentos". Além desses pontos, Kennedy a acenou com
outro, que não escreveu: sua presença na reunião que convocara. Seria a prova
provada de sua sinceridade de propósitos, uma homenagem à América Latina. Essa
oportunidade já está perdida. Kennedy não irá a Punta del Este. É claro que as
justificativas existem: a crise de Berlim, a possível ida de Fidel Castro; o
fato do Congresso americano estar votando a lei de ajuda ao exterior e sua
presença é indispensável etc.
Ao constatarmos a ausência de Kennedy, nos lembramos de que a ordem de invadir
Cuba foi dada por ele após ter pronunciado o discurso da Aliança para o
Progresso, poderíamos concluir que o êxito da reunião de Punta del Este começou
a perigar mesmo antes dos delegados lá chegarem. Preferimos meditar nas palavras
pronunciadas em 22 de julho por Chester Bowles:
"Sob o governo Kennedy, os Estados Unidos voltam a descobrir a América Latina.
Houve uma mudança, e hoje é visível nos Estados Unidos um desejo de lutar contra
a pobreza, contra a injustiça dos sistemas agrícolas e uma vontade de ajudar os
novos governos democráticos. O mais importante é que repelimos a letargia, a
apatia e o sentimento de indiferença que existia".
Guevara passou três semanas cheias de emoções políticas e pessoais (de 2 a
20/8/61), etapa mais emocionante de sua vida e quando o presidente John Kennedy
lançou o ambicioso projeto da aliança para o Progresso, em Punta del Este, no
Uruguai.
Os maiores países da América Latina, a Argentina e o Brasil, participavam das
idéias gerais do projeto de Kennedy e seus presidentes pareciam manter vínculos
invisíveis com o mandatário norte-americano. O fracasso da invasão contra Cuba
enfraquecera Kennedy que, buscou uma aliança duradoura com os países do sul.
Estes países eram governados por homens reformistas da nova geração, para eles
apoiar Kennedy representava uma possibilidade de concluir seus períodos
presidenciais seriamente ameaçados.
Guevara foi convidado verbalmente a visitar o Brasil, o presidente Jânio
Quadros, pelo chefe da delegação e ministro da Economia Clemente Mariani. No dia
seguinte, os brasileiros confirmaram oficialmente o convite como também ele
teria um encontro com Arturo Frondizi em Buenos Aires.
O principal assunto destes encontros com Jânio e com Frondizi, era a Aliança
para o Progresso.
Guevara fez uma análise minuciosa do projeto norte-americano, após sua exposição
por Douglas Dillon. Comparou os progressos de Cuba em dois anos de revolução com
os progressos prometidos à América Latina, mostrou-se cético sobre a
possibilidade de que os fundos de ajuda mencionados chegassem algum dia a ser
entregues, e esboçou as bases sobre as quais Cuba poderia voltar a considerar
sua participação nos planos interamericanos. Sua intervenção causou forte
impacto.
Guevara construiu uma peça oratória sumamente concisa, que se caracterizava pela
economia de adjetivos e pelo tom elevado da crítica. Sentia-se que Cuba abria um
compasso de espera às consultas pessoais que os presidentes Frondizi e Jânio
Quadros queriam fazer por intermédio de Guevara e que, a idéia de um sistema
pan-americano, reconstruído pelo espírito kennediano, não era totalmente
desagradável a Cuba, com a condição que fosse respeitada a sua forma socialista
de governo.
Guevara aplicou um golpe nos delegados norte-americanos, lendo um documento
secreto relativo ao desenvolvimento econômico da Venezuela. Eles empalideceram e
alegaram não ser um documento oficial norte-americano e sim a opinião de um
funcionário. A polêmica provocada causou transtornos e continuou viva na
Venezuela.
Entre os problemas criados pela visita de Guevara a Buenos Aires existia o
relativo ao documento de identidade que ele ingressaria no país, utilizava-se de
um passaporte, necessitando o visto na embaixada Argentina em Montevidéu. Isso
era exigido e cai por terra o segredo sugerido pelo presidente Frondizi e todos,
inclusive a CIA, sabem que Guevara visitaria a Argentina.
No dia 18/8/61, Guevara viajou para Buenos Aires e lá foi recebido por uma
pequena escolta sob as ordens do chefe da casa militar, no aeródromo de Don
Torcuato, a uns 30 km da capital.
Guevara e Frondizi confidenciaram a portas fechadas durante 1 hora e 20 minutos.
Os temas de desenvolvimento latino-americano foram os primeiros da conversa e o
das questões econômicas. Mas o tema da entrevista era outro, ou seja, seria
inaceitável que Cuba ingressasse numa organização militar extracontinental, que
se incorporasse ao Pacto de Varsóvia. Se Cuba desse esse passo, seu retorno à
família interamericana tornar-se-ia impossível.
Guevara responde que esta hipótese não ocorreu, mas é fato que cuba conta com
assistência militar soviética e dos demais países socialistas.
Os dois discutiram apaixonadamente os temas latino-americanos, o presente e o
futuro da Argentina e de Cuba. Enquanto conversavam, um furacão percorria os
gabinetes dos ministros, os escritórios dos chefes militares, as agências
informativas e as embaixadas.
Guevara deixa a Argentina e voa para Brasília. No dia 19/8/61, o presidente
Jânio Quadros condecorou Guevara com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, numa
cerimônia improvisada no Palácio do Planalto. Ele ignorava que iria receber uma
condecoração, mas também o caráter oficial do encontro. Ele não tinha como
retribuir a condecoração, como é usual, e o discurso de Jânio foi breve.
Preferiu Guevara retribuir com discurso breve, aceitando a distinção como
entregue ao governo revolucionário e ao povo cubano, sem significado pessoal.
Em 19 de agosto, Che Guevara é recebido por Jânio Quadros em Brasília, o qual
aproveita a ocasião para atender um pedido do núncio apostólico, monsenhor
Lombardi, para interferir na libertação de 20 padres espanhóis, presos em Cuba.
No caso dos padres, Guevara concorda com a libertação, avisando, entretanto que,
dentro das regras cubanas, eles serão em seguida expulsos para a Espanha. Jânio
manifesta sua opinião de que a expulsão é um assunto interno de Cuba, que só a
ela cabe resolver. O Brasil defende a libertação e com esse ato considera o
pedido satisfeito.
A conversa entre Guevara e Jânio girou sobre: a conveniência de não aderir ao
pacto de Varsóvia, insinuações sobre a democracia representativa, porta aberta
para Cuba na organização norte-americana.
No Rio de Janeiro e em São Paulo a repercussão foi forte com as massas nas ruas,
bandeiras cubanas e retratos de Che Guevara. O escândalo estourou como na
Argentina, e Jânio, uma semana depois abandonou o governo sob as ameaças da
direita.
Frondizi recebeu tamanha quantidade de ataques que antes de completar sete
meses, foi também derrubado. Já, Kennedy, a quem coube o papel equívoco de
invasor armado e reabilitador diplomático, foi assassinado dois anos depois,
numa confabulação obscura onde as relações com Cuba foram fator de sua
transcendência.
Na vida de Ernesto Che Guevara, a inteligência e a violência se alternaram o
tempo todo.
O ano de 1963 apresentou-se agitado em toda América Latina. No Brasil crescia a
organização das ligas camponesas, sob a tolerância do presidente João Goulart,
um nacionalista que se apoiava cada dia mais nos esquerdistas dos sindicatos e
nos intelectuais.
Resumindo, onde quer que Che Guevara pousasse, aconteciam calamidades com
conseqüências desastrosas, aqui no Brasil, foi condecorado por Jânio Quadros e
cinco dias depois, a renunciar.
(*) é professor universitário, jornalista e escritor
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