ARTIGOS
A Noite que me olha
CARLOS HIGGIE
A esta hora da noite desce uma
nostalgia incontrolável ou sobe uma dor difusa que te morde a alma e digere com
indolência todas as mais recônditas esperanças. Penso escrever sobre uma mulher
que amei num tempo recente e inquietante, porém os olhos do menino, o sorriso
sujo, cariado, a cara molhada de medo e coragem, não me deixam pensar.
Há poucos dias li sobre uma velha que apodreceu debaixo de um viaduto e ninguém,
ninguém mesmo, fez nada. Fez-se espírito e buscou melhores ares; desfez-se
corroída pela fome, aguilhoada pelo frio e pisoteada pela indiferença de seus
pares. Apenas uma velha. Velha e mendiga. Talvez comesse lixo, pedras. Merda,
quem sabe.
Por isso não consegui escrever sobre a mulher que desejei, numa tarde de um dia
qualquer...
O menino é diferente, é como se visse em seus olhos o negro futuro, um porvir
que esperava nunca ver, porém cada vez mais próximo.
É a festa de meu amigo Leopoldo, meu único amigo. Nasceu há muitos anos e
festeja não sei bem o quê. Quando éramos pequenos e selvagens, corríamos pelas
ruas molhadas, fazíamos guerra com bosta seca de cavalos e abrolhos. Aos
domingos, e nos outros dias também, corríamos atrás da bola, buscando o gol
mágico, embriagante. É verdade, fomos sujos, sórdidos, perversos com a prima de
André, naquele entardecer, perto da lagoa.
Tudo isso está sepultado pelo pó do tempo.
Nora veio até mim, copo de uísque na mão, um sorriso pré-fabricado, palavras que
pretendem ser agradáveis. Olho para ela, do centro confuso e turvo do pensamento
do menino abandonado. E cresce em mim a raiva. Estou dentro de sua pele, me
sustento em seus ossos descalcificados.
Nora não compreende. Estamos numa festa, tanta gente importante, tantos
conhecidos! Muita comida e muitíssima bebida.
Pergunta e não respondo, vejo-a, sinto-a feia e vulgar, tão limpa e perfumada,
tão igual. “Vem!” – digo, e ela me pergunta o que acontece; empurro-a pelo
corredor, abro uma porta: é um quartinho escuro, cheirando a mofo, com
vassouras, baldes e detergentes. “Estás louco?!” Fecho a porta, ela fala em
Leopoldo e nas outras pessoas, cubro sua boca, sou menino feito homem ferido,
tenho cheiro de rua, de miséria; ela parece entender e se abre inteira como uma
prostituta qualquer, ainda que surpreendida e assustada. Faço-a gozar em
instantes e explodo em milhões de pequenos gritos. Olha-me, assustada, fala de
respeito, de Leopoldo, pergunta por quê?, vai-se embora, fecha a porta, me enche
de escuridão. Saio da pele do menino que suplica, pede uma esmola para comprar
pão ou droga. Descubro que eu sou eu, porém não sou eu. Era Nora, penso, a
mulher de meu amigo Leopoldo, que festeja seu aniversário, estou na sua casa e
bebo de seu uísque, de seu vinho.
Agora que já é demasiado tarde, e não adianta nada perguntar, muito menos
responder. Por quê?
ARTIGOS
Espelho
CARLOS HIGGIE
Espelho: Do latim speculum, lâmina de
cristal azougue, para refletir objetos.
O objeto sou eu. Trinta e poucos anos, um ricto quase imperceptível nos lábios,
um cansaço que já não é meu. No fundo, perdida na íris castanha, uma pequena luz
insiste em não apagar.
Falou-me Guacira que estou ficando careca. Tem razão. Debaixo do meu cabelo,
outrora abundante e forte, cresce uns clarões e as entradas estão maiores. Estou
me resignando a ser calvo. Em realidade já me resignei a tudo. Como se minha
vida fosse um grande dominó, preparado para uma reação em cadeia: cai a primeira
peça, derrubando, em um movimento contínuo e em câmara lenta, as outras. Cada
sonho que passa, cada esperança que se despenca, derruba a seguinte. E assim,
sucessivamente. Este foi um ano pródigo em quedas.
Se vasculhasse no remoto e polido pretérito, no começo do efeito dominó,
dificilmente conseguiria identificá-lo. Em alguns momentos penso em Marcela como
o começo do fim. Que nosso proibido, e por isso furtivo romance, desencadeou uma
avalanche que só terminará quando eu morrer.
Não tenho estômago para agüentar a Guacira. Agora somos quase inimigos; a vida
nos jogou num ringue, no qual nos enfrentamos todo dia. Passamos da paixão à
rotina sem percebermos. Odiamos por obrigação, mordemos, ferimos sem piedade.
Ela não tem culpa, ainda que às vezes faltasse compreensão e paciência.
A terra, vista do infinito, não existe. E da lua, que está a um passo dos
menores, é somente uma bola azul-prateada e nada mais. Por isso não consigo
imaginar a microscópica dimensão dos meus problemas. Sei que, afundado neles, me
parece um oceano hostil e tenebroso, prestes a inundar minha consciência.
Marcela emerge seguidamente do passado. Insiste em quebrar minha já frágil
estrutura. Ela é a lembrança mais louca e bonita da minha vida. Com ela cometi
todas as loucuras da juventude. Na madrugada de um verão memorável, na velha
bicicleta, fugimos por trilhas de areia e pedra, rumo ao mar. Dias depois a
polícia nos pegou, principalmente porque paramos nos arroios, montes e
plantações, para o regalo de nossos corpos, descobrindo na imensidão do campo e
da noite, a pequenez e o milagre do nosso prazer. Marcela saia de si,
transformando-se em mulher, apesar de uma adolescência.
Depois da surra que seu pai me deu, ela sumiu. Descobri que casou, teve filhos e
fez todas as coisas que juramos não fazer.
Guacira sabe pouco destas coisas que povoaram minha juventude, não entende que
por dentro vão muitos eus em permanentes choques.
Não tenho dúvidas: o efeito dominó começou com os murros do pai de Marcela.
Passei meses, anos, afogado pela mágoa e pela lembrança clara e forte daquela
garota, desfalecendo em meus braços, bêbada de paixão e prazer, gemendo feito
bicho, cada vez que tocava o céu. Minha mãe se desesperava, tentava me buscar
para a vida. O pai me insultava, maldizia. Perdi quilos e ilusões, esvaziando
como um balão.
Um dia qualquer voltei à normalidade, andando pelos caminhos marcados e
preestabelecidos. Um dia, Guacira. Outro, o casamento. O apartamento, os móveis,
a rotina, o medo crescendo como um cogumelo, subindo feito trepadeira, invadindo
meu sangue.
Agora, seis horas da manhã, as coisas parecem desconhecidas, emergentes de uma
realidade paralela, subjacente: a casa toda está coberta por um silêncio
adormecido. Fugitiva de um sonho qualquer, permanece sob a pele, uma sensação
inequívoca de que tudo está fora de lugar. As coisas e eu.
As moscas, amorais e sujas, amam-se sobre a mesa da cozinha, como qualquer parte
do mundo. Uma torneira pinga na minha alma.
A luz do amanhecer iluminou meus traços tristes, refletidos no espelho. Dali até
a sacada foi um instante. Da sacada ao parapeito, outro.
Vejo lá embaixo, diminuídas e distantes, as árvores, a rua, os madrugadores.
Choro. Sinto dor nas pernas. Quero saltar. Flutuar, navegar, fazer-me merda no
teto de um ônibus, asfalto ou cabeça dos passantes.
Tudo parece um tango. Dirão tantas coisas amanhã, hoje pela tarde! Que tinha
amante, endividado horrores, homossexual, HIV positivo. Inventarão histórias.
Não sei porque saltar, estourar na rua as poucas ilusões que restam. Talvez
porque ontem num bar fedorento, vi minha vida num instante, nos olhos borrachos
de Marcela; talvez por vê-la tão decadente, gorda, enrugada. Tão velha como o
mundo; vulgar como todos. Os olhares se reconheceram. Julgaram nossos dias. Ela
inclinou-se e vomitou.
volta