Cadeira XXVII - Patrono de Gustavo Siqueira
Frei Odorico Durieux
"Jamais! Nunca uma pessoa será imortal. Podemos ter o título, mas será só um
título. Pra que vale um título de imortal? Título é começo de história, é o
cheiro de bolo saindo do fogo, é o miau do leão, é o rotulo que chama atenção, é
o primeiro capítulo da novela.
Pra muita gente um título pode simbolizar ter o ego sublinhado, enfeitar com
aspas a vaidade, e até mesmo esfarelar uma purpurinazinha na alma. Eu tenho pena
dessas pessoas. Elas marcam presença nas livrarias da vida, mas escolhem seus
livros pelo nome pomposo do autor, pela capa imponente, pelo título. Título? O
que seriam dos livros se se resumissem aos títulos? É o conteúdo que faz a
diferença. Esse sim pode ser chamado de imortal. Imortais são gestos, ações,
atitudes, palavras. Imortal é o que semeamos na vida para alguém colher mais
tarde.
Todos nós aqui presentes somos convidados a estrelar como atores principais de
nossas próprias vidas. Será que não estamos sendo coadjuvantes? Será que não
estamos muito preocupados com os títulos e esquecendo do nosso conteúdo? Estamos
folheando ou escrevendo o livro de nossas vidas? Todo mundo tem duas opções: ou
vive para acontecer e deixar marcas que podem se tornar imortais, ou vive para
morrer. É muito mais fácil viver para morrer! E dá pra usar o mesmo título do
berço à lapide!
Senhoras e Senhores! Boa Noite!
Tudo bem que meu traseiro é grande, mas quero convidar cada um de vocês a também
ocupar a cadeira número XVII. Vamos fazer desse assento um trampolim da
oratória, da valorização da última flor do Lácio, da eloqüência da boa cultura e
do cultivo constante da ética, da visão crítica e da cidadania. Nunca me
sentiria preparado a ocupar a cadeira de um patrono tão importante – um
nacionalista incondicional – sozinho. Por isso, quero desafiar todos vocês a
exercitarem diariamente os princípios do frade franciscano Odorico Durieux.
Um sábio que há quase meio século previu que em tempos modernos não teria
sucesso quem não dominasse a língua portuguesa e a retórica. Desde à tarde de
Santo Antônio de 1959 ele tornou seus gestos imortais. Fundou a Academia de Mont’Alverne,
um centro de lídima cultura que prepara jovens alunos do Colégio Franciscano
Santo Antônio a exercer técnicas de retórica, liderança e espírito crítico. Frei
Odorico – exímio orador e profundo conhecedor da língua portuguesa - tinha
certeza que essas eram obrigações da escola. E cá entre nós, ele tinha pavor das
pronúncias dos muitos alunos descendentes de alemães. Não conseguia sossegar com
o “r” de “caroça” e os “rr” de “parrede”.
Frei Odorico nos deixou em 1997 e até hoje sua academia lapida jovens para os
desafios de tempos futuros. De lá, saíram grande parte dos homens e mulheres que
hoje nos fazem ter prazer de ser catarinense.
É motivo de grande orgulho e muita responsabilidade passar a ocupar sua cadeira.
Mais do que ações imortais, Frei Odorico Durieux nos deixou uma grande certeza
que “é só descruzarmos os braços para o que achamos ser sonhos se tornarem
realidade”.
Será que não estamos esquecendo nossos sonhos em travesseiros de pena de ganso
antialérgicos? Tenho Dito"
(Discurso de Posse de Gustavo Siqueira na Academia
de Letras de Blumenau-22/09/2004)