Cadeira XVIII - Patronesse de Rosane Magaly Martins
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Rosálie Julie Auguste Sametzki ou Roese Gaetner
Empreendedora do Teatro Blumenauense |
A história de Roese Gaertner liga-se ao teatro, à cultura e a história de Blumenau colônia. Ela foi, seguramente, uma mulher forte e determinada e talvez primeiro registro histórico de feminista que foi empresária, empreendedora, diretora de teatro, atriz e ainda mãe de oito filhos. Nasceu na Silésia, Alemanha, em 12 de maio de 1842. Veio para Blumenau adolescente, aos 14 anos na companhia de seu pai, conhecido por Sametzki, um agricultor prussiano.
Na casa de seu pai ela passava os dias a apreciar a natureza e suas belezas, caminhava e cavalgava e mantinha laços culturais com sua terra natal, quando dançava ao som de um violino ou de uma harmônica tocadas pelo pai.
Apesar de muito bela, jovem e ter sido cortejada por muitos rapazes da Blumenau Colônia, casou-se muito cedo, com apenas 13 anos, na igreja evangélica de Blumenau com o oficial prussiano de nome Von Loepper. Este relacionamento não prosperou e resultou no primeiro divórcio que se tem notícia na colônia, movido em 23 de junho de 1865 pelo juiz de Direito Joaquim Antônio da Silva Barata.
Pouco tempo depois voltou a casar-se, desta vez com o sobrinho do doutor Blumenau, Victor Gaertner, em 29 de junho de 1865. Seu segundo marido, dez anos mais velho, era cônsul da Prússia e pode ampará-la em diversos aspectos e possibilitar que seus sonhos fossem viabilizados.
Os textos da época informam que Roese não era exatamente uma dama da sociedade e não limitava seu trabalho às lides domésticas. Gertrud Hering Gross, citada por RENAUX (1995, p.151), afirmava que “as damas de suas relações submetiam-se voluntariamente às suas ordens e sempre se mostravam dispostas a compartilhar da representação de pequenas peças teatrais que Roese escolhia e ensaiava”.
Reunia amigos, ensaiavam e faziam pequenas encenações. Em 1870 apresentou-se pela primeira vez num palco, na sede da sociedade de atiradores Schutzenverein.
A atriz era a principal presença feminina em cena. Entretanto não era dada à fama e sempre produziu pequenos espetáculos, pois temia que suas representações não fossem compreendidas por um público mais heterogêneo.
Gustav Stutzer, citado por RENAUX (1995, p. 152) destaca que “em pequenas peças de comédia apresentavam valiosos espetáculos. Também os cenários eram vistosos e pintados aqui mesmo”. No palco Roese foi sempre a figura principal, tendo como parceiro constante um dos mais importantes nomes do comércio blumenauense, Gustav Salinger.
Roese sofreu duas grandes perdas: primeiro com a morte prematura do marido Victor Gaertner em 1887, quando estava com 35 anos de idade e, a segunda, com a morte do pai, em 1893. Com a mesma coragem que teve para as atividades e articulações culturais ela deu continuidade aos negócios do marido e à educação de seus oito filhos. Dirigia a casa comercial Victor Gaertner e a agência dos navios fluviais “Progresso” e “Blumenau”.
As responsabilidades assumidas por ela dentro e fora do lar não a afastaram de sua paixão, o teatro. Organizou campanhas de doações, que somadas ao dinheiro das apresentações e de um empréstimo, começou à construção do primeiro teatro de Blumenau, na rua das Palmeiras chamado Theaterverein Frohsinn, Sociedade Teatral Froshinn, que significa “bom humor”.
Seu sonho se realizou em 1896, quando o teatro da Sociedade Teatral Froshinn foi inaugurado com a peça “Ein toller Einfall”, “uma idéia muito louca”, em sua homenagem. Roese Gartner faleceu em 26 de dezembro de 1900, aos 58 anos, vítima de câncer estomacal.
Escritos de Rose Gaertner, apenas uma carta aos seus avós na Alemanha, datada de 1860 (Carta no Arquivo Histórico), quando relatou a situação da colônia, seu encanto por esta terra, da pouca variedade de comida (apenas feijão com farinha) e que poderia ter casado várias vezes, mas que ainda não tinha tido vontade. “As jovens aqui são como pão fresco, logo têm saída...” escreveu aos avós que viviam em Dresden, na Saxônia.
ROSE GAERTNER era dotada de espírito vivo, brilhante, era desenvolta e possuía envolvente charme que lhe facilitava a realização de suas aspirações e desejos. Quando de sua morte, o jornal “Blumenauer Zeitung” publicou artigo em sua homenagem, destacado por RENAUX (1995, p. 156): “Dama inteligente, de coração generoso, exerceu importante papel na sociedade blumenauense; era muito estimada, respeitada e venerada por muitas famílias que dela tiveram amparo e ajuda em todas as situações, quer auxílio pecuniário, quer de sábios conselhos e de orientação certa na solução de problemas com os quais vinham à sua presença.
Por muitos anos foi diretora da Agência da Companhia Fluvial, em cujo encargo demonstrou extraordinária capacidade e pelo que granjeou a gratidão e respeito não só da referida Sociedade Anônima, mas também de todos os funcionários e empregados da empresa (...). Principalmente no ramo teatral, foi incansável sua atividade e talento, dedicando ela todo o seu tempo disponível ao desenvolvimento da cultura artística e do teatro. Conquistou grandes triunfos, ao atuar em peças interpretando os mais difíceis papéis com muito bom desempenho. O teatro Froshinn muito lhe deve, pois foi dela a mais ativa orientadora e eficaz sustentáculo dessa sociedade cultural”.
Referências:
GAERTNER, Roese, Carta, Blumenau, 15 de agosto de 1960, Arquivo Histórico José Ferreira da Silva, Pasta da Família Gaertner.
RENAUX, Maria Luíza. O outro lado da história: o papel da mulher mo Vale do Itajaí 1850-1950. Blumenau: Ed. FURB, 1995. 238 p.
Foto: Arquivo histórico José Ferreira da Silva.