Cadeira XXII - Patronesse de Carlos Higgie
Nemésia Margarida
Uma cidade, um país, uma nação não se fazem, não se levantam e não são somente ruas, estradas, casas, edifícios, bens materiais. Tal afirmação parece obvia, porém, devemos lembrar e relembrar, cada dia das nossas vidas que existe algo mais além daquilo que nossos imperfeitos olhos enxergam. Muito além das regras inflexíveis e deterministas da economia, muito além desse rio tortuoso que nos leva, existem outras correntes, outras forças que definem a cor da alma humana.
A arte, tantas vezes copiada pela vida, é uma dessas correntes que alimenta o obscuro rio da alma humana. De nada vale toda a riqueza do mundo se nosso espirito não passa de uma casca sem conteúdo, um recipiente oco e sem sentido.
Se paramos para o olhar o mundo, perceberemos que tudo corre a uma velocidade assustadora. Tudo é muito rápido, escapa das nossas mãos; como na realidade virtual: tudo muda de um instante para o outro. Mas a alma humana, essa que permanece silenciosa, é a mesma. Pouco o nada nos separa dos homens que desenharam animais, historias, nas cavernas mal iluminadas dos primórdios da humanidade. Por séculos e séculos, alimentamos as mesmas esperanças, os mesmos temores, os mesmos obscuros e irresistíveis desejos. Morremos e matamos por nada, trememos quando somos enfrentados ao desconhecido, não enxergamos muito além do nosso próprio umbigo.
Por isso hoje, meio século depois de chegar ao mundo, depois de recorrer tantos caminhos, chorar e rir, perder e ganhar, aprendendo sempre, crescendo sempre, sinto-me imensamente feliz por estar aqui, no meio de vocês, numa noite tão especial, na qual reverenciamos às artes e, no meu caso, em especial, à literatura.
E para que escrever se tão poucos lêem? Será que não estamos escrevendo na areia, bem naquele local onde minutos depois as ondas apagarão tudo? Esse parece ser o destino, a missão, do escritor. Escrever, escrever, escrever, encher páginas e páginas de palavras, frases, sentimentos, histórias, versos e emoções. Páginas prenhes de amores, violências, fantasias e realidades: páginas cheias de vidas anelando o olhar curioso, atento, que chega para decifrar todos os códigos, para encontrar todas as respostas para perguntas nunca formuladas. Parece loucura, uma divina e maravilhosa loucura. Mas não é. Os escritores, os trovadores, os poetas, os pensadores e tantos outros artistas, também constróem o mundo. Eles fundamentam e provocam revoluções, trazem a paz, iluminam como faróis na escuridão, abrem portas, janelas e caminhos com poucas e simples palavras. Nisso reside a magia da literatura, no seu poder para provocar o estranhamento, para acender a chispa do espirito humano, para numa reação em cadeia arrasadora lançar homens e mulheres por novos caminhos, mundos, realidades.
Nem sempre a sociedade, ofuscada pelos bens materiais, reconhece o valor desses homens e mulheres que se dedicam, de corpo e alma, a mergulhar no inconsciente coletivo, construindo realidades inéditas. Homens e mulheres muitas vezes anônimos, levando sua vida até com penúrias, mas sem desistir jamais, alimentados por um fogo inexplicável, eterno e poderoso. Na maioria das vezes, quando chega o reconhecimento público eles já não estão nesta vida e navegam, iluminados, por outros desconhecidos mares.
Como eles, outra classe esforçada até a abnegação, sofre o desprezo dos seus semelhantes: a dos professores. Sem eles, certamente, nenhuma sociedade poderia ser construída, nenhum país poderia sequer sonhar em progredir, em transformar-se numa nação forte e digna. Mesmo sabendo da sua importância dentro do nosso contexto, eles são maltratados por todos: pais, estudantes, patrões e governo.
Cabe aos professores a árdua missão de ensinar a aprender, de iluminar o mundo e seus mistérios, de ensinar a pensar. Sem o professor, sem o mestre, a maioria não sairia dos balbucios e se transformariam em lamentáveis homens, apenas diferenciados dos animais. Vemos poucas estatuas nas praças, nos colégios, nas universidades, nas ruas das cidades, lembrando ou homenageando aos professores.
Por esse motivo quero erigir, nesta noite, uma estatua espiritual, aos professores da minha, das nossas vidas, e, em especial, a uma que iluminará com sua historia meu caminhar na Academia Blumenaense de Letras: a minha patrona Nemésia Margarida.
Nemésia Margarida que passou por este mundo no século passado, semeou e talvez não colheu tudo aquilo que plantou. Ela formou-se em 1922 no então denominado Grupo Escolar Luiz Delfino. No dia 29 de agosto de 1936 passou a exercer o cargo de adjunta da Escola Mista do Salto Norte. Lecionou, também, como professora pública municipal na Escola do Bairro da Velha.
A pesar de que uma Escola Básica Municipal leva seu nome, poucos conhecem sua história, sua lutas, suas esperanças, os sonhos que alimentou, os sonhos que se transformaram em realidade. Desconhecemos a maior parte da sua vida e obra e sem dúvida isso é algo que não pode ser perdoado. Não podemos condenar ao esquecimento os homens e mulheres que edificaram nosso presente.
Que Deus nos ilumine e abra nossos olhos para aquilo que realmente importa.