Cadeira XXVI - Patronesse de Nelson Valente
Maura de Senna Pereira
O trabalho conta a trajetória profissional e pessoal da primeira jornalista de que se tem registros em Santa Catarina. Através da pesquisa em jornais do início do século passado e consulta a especialistas, o texto revela o nome da mulher precursora no jornalismo do Estado: Maura de Senna Pereira. Ela iniciou a carreira em Florianópolis, escrevendo especialmente, artigos sobre as qualidades e conquistas femininas e a busca dos direitos da mulher. Dirigiu colunas literárias e representou Santa Catarina em diversas situações. Maura defendeu também causas ambientais e escreveu uma série de livros, principalmente de poesias. Foi membro da Academia Catarinense de Letras e, ainda jovem, mudou-se para o Rio de Janeiro, retornando depois disso poucas vezes à capital catarinense.
Tudo começou graças a um empurrãozinho de José Acrísio, redator, em 1923, de um
dos mais importantes jornais da capital catarinense. Ele desafiou publicamente
as mulheres a escreverem na imprensa de Florianópolis. A resposta ao desafio
chegou à redação de O Elegante poucos dias depois, e a responsável foi Maura de
Senna Pereira, pseudônimo: Alba Lygia. Em pouco tempo, o nome verdadeiro foi
descoberto, e Santa Catarina conhecia aquela que viria a ser a primeira
jornalista do Estado de fato.
Uma mulher à frente do seu tempo, assim foi Maura de Senna Pereira. Ela nasceu
em março de 1904, aprendeu a ler antes mesmo de freqüentar a escola; e aos 19
anos, com a morte do pai e de um de seus irmãos, teve que trabalhar para
sustentar a família de 10 pessoas. Foi nesse momento que Maura assumiu sua
primeira profissão, a de professora. Mas essa ocupação seria apenas para
garantir a renda da família porque desde o primeiro artigo para O Elegante,
Maura não deixaria mais de escrever.
O roteiro pela imprensa catarinense
Presbiteriana, a jornalista exerce, em 1924, a presidência da Sociedade
Auxiliadora dos Moços, e escreve para o jornal O Atalaia, ambos ligados à Igreja
Católica. Sua primeira participação expressiva na imprensa será, no entanto, no
mesmo O Elegante de seu artigo precursor. Ela retoma sua vocação para o
pioneirismo e escreve em 31 de março de 1925 aquele que viria a ser o primeiro
artigo feminista publicado em Santa Catarina: “Volvamos nossas vistas para o
porvir”. Ele será parte de uma série publicada na seção “Feminismo”, da qual
Maura tornou-se responsável.
“Nesses últimos tempos, com especialidade, muito se há pregado uma profissão
para a mulher. Que ella se não dedique exclusivamente – á aprendizagem de
encargos domésticos e prendas essencialmente feminis. E o que é mais: que não
viva unicamente a cuidar de si, para apparecer bem, bem mascarada, á força de
rouge, carmin e crayon, vivendo a vida material das futilidades e do coquettismo,
das mentiras de salão, cuidando das modas e de flirt, em busca do marido rico,
de invejável posição social, a quem levianamente entregará o coração e a vida,
sem a menor reflexão, quasi sempre sem amor, e que lhe assegurará a mesma
existência cômmoda e chic. (...)”
No próximo ano, ela passa a escrever a coluna “À la garçonne”, do jornal
florianopolitano Folha Nova. “Nela,Maura traçava perfis de senhoras e senhoritas
da elite catarinense, não dentro dos padrões da época, mas mostrando sua
importância pelas atividades que desenvolvem”. Porém, sua participação mais
duradoura na imprensa de Florianópolis da época, será no jornal República, onde
escreveria por sete anos. Em maio de 1931, seu nome apareceria no expediente do
jornal entre os principais redatores. A partir de então, Maura tornou-se
responsável pela página “Domingo Literário”, publicada semanalmente. Na seção,
seu nome figura como diretora geral, sempre no topo da página, emoldurada e
decorada. Em um período em que a comunicação entre Florianópolis e os outros
centros culturais é escassa, Maura traz para a capital catarinense poemas e
artigos de autores de outros estados brasileiros, e até mesmo, de fora do país.
Lauro Junkes, escritor e presidente da Academia Catarinense de Letras – da qual
Maura fez parte graças a seu jornalismo engajado, e presença intelectual
marcante na vida social de Florianópolis – diz que a maior contribuição da
escritora foi conseguir a projeção da mulher em uma atividade predominantemente
masculina. “Maura foi uma mulher de espírito avançado em tudo”, completa Junkes.
As bandeiras
As principais lutas de Maura eram relacionadas às mulheres. Ela defendeu
incessantemente o direito da mulher ocupar novos espaços na sociedade – de não
ficarem restritas à esfera do lar –, o direito ao divórcio e ao voto feminino.
“Para Maura a educação seria o meio das mulheres conseguirem ficar em posição de
igualdade com os homens”.
No que diz respeito ao divórcio, a jornalista sentiu na pele o preconceito da
sociedade da época. Aos 27 anos, casou-se pela primeira vez e foi morar no Rio
Grande do Sul, terra-natal do seu então marido. Frustrada, ela rompe o casamento
e volta para Florianópolis. Não permanece na Ilha nem por um ano, não havia
espaço para mulheres separadas, muito menos no meio público.
Um exemplo de mulher para Maura, e tema recorrente de seus artigos, foi Anita
Garibaldi. A jornalista destaca, além do heroísmo de Anita; a mulher que não se
conforma com os papéis já estabelecidos pela sociedade e assume novas posturas.
Apesar de ressaltar essas qualidades, ela faz questão de citar os atributos da
heroína ditos femininos, já que eram esses os respeitados pela sociedade.
“Pode-se dizer que Maura foi uma feminista possível para a época, porque uma
pessoa, por mais que inove, nunca está totalmente desligada de seu contexto”,
explica Junkes.
Além de defender causas feministas que somente mais tarde as militantes
começariam a reivindicar, a jornalista também prenunciou uma consciência
ecológica que surgiu apenas nas últimas décadas do século passado.
Rio de Janeiro, a terra adotada
Depois da separação do primeiro marido,Maura vai morar no Rio de Janeiro, cidade
onde viverá até o fim da vida e encontrará – como ela mesmo descreve em poemas –
o verdadeiro amor.Maura conhece o escritor José Coelho de Almeida Cousin, poeta
mineiro de quem já havia publicado textos na seção “Domingo Literário”, do
jornal República, de Florianópolis. Em 1942, Maura passa a viver com o escritor
e desperta mais fortemente para a poesia. A partir de então, ela torna-se
novamente pioneira: passa a abordar o aspecto sexual das mulheres em seus
textos.
Na imprensa carioca,Maura trabalhou em diversos jornais e revistas. Entre eles,
A Noite, A Manhã e Vida. A impossibilidade de ter filhos fez com que se
interessasse por alguns temas relacionados ao assunto. Em A Noite, por exemplo,
a jornalista publica várias reportagens sobre o parto sem dor, realizadas na
maternidade Clara Basbaum. Em 1957, a série torna-se livro e um fenômeno de
vendas na Feira de Livros realizada naquele ano, no Rio de Janeiro. No jornal A
Manhã, Maura escreve ainda inúmeras reportagens sobre fecundidade, esterilidade
e terapêutica psiquiátrica.
No entanto, sua colaboração mais duradoura na imprensa carioca seria no jornal
Gazeta de Notícias. Primeiro, como criadora e responsável pelo suplemento
“Mulher” que inicia em 1950. Mais tarde, como editora das colunas “Casa de
Boneca” e “Nós e o Mundo”.
Depois da mudança e união com Cousin, Maura retorna poucas vezes à
Florianópolis, muitas delas para participar de eventos públicos e representar,
como no período em que morou na sua terra-natal, a mulher catarinense. Maura de
Senna Pereira a mulher que abriu portas para as novas jornalistas e questionou
valores enraizados na sociedade, morre no Rio de Janeiro, aos 88 anos, deixando
saudades ao mundo jornalístico e literário.
A veia poética acompanhou Maura de Senna Pereira em toda sua vida. É reconhecida por grandes escritores e está expressa em diversos livros. Carlos Drummond de Andrade avaliou sua poesia como de “alta meditação existencial”. Jorge Amado classificou seus versos como “densos e fortes”.
Seu primeiro livro foi Cântaro de Ternura, publicado em 1931; seguido de Poemas
do Meio-Dia de 1949, e Círculo Sexto (1959). País de Rosamor, de 1962, é
considerado pelos críticos, uma de suas principais obras e representa uma
síntese do pensamento da escritora. Nele, Maura propõe um novo mundo, de uma
sociedade igualitária, socialmente justa e em harmonia com a natureza.
Em 1980, a autora escreve Despoemas, um livro de apenas 23 páginas; seguido de
Cantiga de Amiga, editado em 1981. Poemas-Estórias, de 1984, é um misto de
poesia, conto, fábula narrativa e fábula poética. Seus últimos livros –7 Poemas
de Amor e Busco a Palavra – foram publicados em 1985, sete anos antes de sua
morte.